O setor químico global continua em recessão
A indústria química global continua mergulhada numa recessão prolongada, com a utilização da capacidade produtiva a cair abaixo dos 75% entre os principais produtores. A fraca procura, combinada com um excesso de oferta persistente, está a impulsionar esta tendência, afetando mais fortemente os produtos químicos básicos. Desde 2022, o consumo lento nos setores da construção e automóvel tem-se chocado com expansões agressivas de capacidade, particularmente por parte da China, cuja quota na capacidade de produção global de produtos químicos básicos essenciais (por exemplo, ácido acrílico, benzeno, propileno, óxido de etileno, carbonato de sódio, estireno) se aproxima dos 50%. Este aumento acentuado tem pressionado as taxas de utilização a nível global, reduzindo as margens e pesando sobre os preços. Entretanto, a queda dos custos energéticos permitiu que os produtores nos EUA e no Médio Oriente aumentassem a produção, aprofundando o desequilíbrio e redirecionando os fluxos comerciais para regiões de baixo custo.
A procura de produtos químicos continua fraca na maioria dos segmentos, refletindo dificuldades económicas mais generalizadas. A construção e o setor automóvel, os dois maiores mercados a jusante, continuam a pesar sobre os volumes. No entanto, espera-se uma melhoria em algumas regiões geográficas para ambos os setores em 2026. Além disso, categorias impulsionadas pelo consumo, como a beleza e as fragrâncias, estão a normalizar-se após anos de crescimento recorde. Isto está a obrigar os fornecedores de compostos aromáticos, solventes e polímeros para embalagens a reajustar as suas estratégias de capacidade e preços.
O excesso de oferta petroquímica continua a ser a característica marcante dos mercados atuais. A China ilustra o desafio: apesar das margens fracas e do excesso de capacidade crónico, o investimento em novas fábricas continua. Prevê-se mesmo que a capacidade chinesa de polietileno aumente mais 16% em 2026 (fonte: JLC). As autoridades estão, no entanto, a debater medidas anti-involução para travar a expansão redundante. Isto inclui planos para encerrar temporariamente instalações petroquímicas mais antigas (~40% da capacidade nacional) para reabilitação, com o objetivo de melhorar os rendimentos e, potencialmente, elevar a produção na cadeia de valor. Se implementada, esta medida poderá proporcionar um alívio significativo ao setor a médio prazo. Para além da elevada capacidade na China, os produtores dos EUA e do Médio Oriente continuam a usufruir de uma vantagem estrutural em termos de custos face aos concorrentes que utilizam nafta (por exemplo, a Europa), graças ao etano barato e aos preços moderados da energia. Isto permite uma produção de etileno altamente competitiva e exportações agressivas de derivados, como o polietileno.
Europa sobrecarregada por pressões de custos e inundação de importações
Dadas as condições favoráveis da oferta e os fundamentos da procura persistentemente fracos, os preços e as margens globais continuam sob pressão, sendo a Europa a mais afetada. Os produtores dos EUA e do Médio Oriente estão a exercer pressão sobre o mercado europeu através do fornecimento de polímeros de baixo custo, enquanto a China está a aumentar a sua presença nas exportações de produtos a jusante mais baratos, como o PVC e o PET. As empresas europeias, prejudicadas pelos elevados custos da energia e das emissões de carbono, continuam a perder competitividade, o que resulta em margens reduzidas, queda da produção e aceleração do encerramento de fábricas.
Indicadores recentes apontam para uma recessão prolongada. Na UE-27, a atividade global continua a diminuir numa base homóloga, com a produção a situar-se 20 % abaixo dos níveis de 2019. A Alemanha, o maior produtor químico da Europa, continua a ser o país que mais fica para trás. Os inquéritos às empresas também apontam para uma recessão prolongada: as novas encomendas continuam a enfraquecer em todo o continente, com as empresas a citarem a fraca procura como o principal fator que limita a sua produção. A taxa global de utilização da capacidade também se mantém abaixo dos 75 %, mas parece estar a estabilizar graças aos recentes encerramentos de fábricas.
Os produtores químicos europeus estão a intensificar os apelos à intervenção governamental à medida que as pressões sobre os custos se agravam. As suas exigências incluem direitos anti-dumping, subsídios à energia e a eliminação das taxas sobre as emissões de carbono. A resposta política tem sido lenta e os efeitos ainda não se fazem sentir. Por exemplo, a UE revelou recentemente o Plano de Ação para a Indústria Química, destinado a fazer face a estas restrições competitivas. A Alemanha propôs igualmente um pacote de medidas de apoio (a aguardar implementação) para as indústrias de elevado consumo energético, fixando um preço industrial da eletricidade de 0,05 EUR/kWh a partir de 2026, a par de uma redução dos impostos e taxas sobre a eletricidade. No entanto, nenhuma destas medidas se concretizou ainda.
A Ásia, com exceção da China, continua igualmente sob pressão. O setor indiano de produtos químicos especializados está a expandir-se graças à procura dos setores farmacêutico e agroquímico, mas o choque tarifário de 50 % imposto pelos EUA irá forçar o redirecionamento das rotas e minar a competitividade. Em resposta, a Índia flexibilizou as restrições à importação de produtos químicos básicos, como o PVC e o PE, provenientes da China. A Coreia do Sul enfrenta um declínio nas exportações e uma erosão da competitividade num contexto de fraca procura chinesa, o que está a impulsionar a consolidação (por exemplo, Lotte-Hyundai). Entretanto, os produtos oleoquímicos da Malásia e da Indonésia beneficiam da transição global para matérias-primas de base biológica, apesar do excesso de capacidade e da fraqueza generalizada do mercado.
Oportunidades no meio da recessão
O setor químico está a atravessar um abrandamento cíclico, mas ainda existem focos de resiliência. Os produtos químicos de base, produzidos em grande escala e vendidos com margens reduzidas, estão a sofrer o impacto mais forte. A queda dos preços está a afastar do mercado os produtores não competitivos, redefinindo os fluxos comerciais e concentrando a quota de mercado em países com vantagens estruturais em termos de custos, nomeadamente o Médio Oriente, os EUA e a China. Estes intervenientes, mesmo sob pressão, estão melhor posicionados para resistir à tempestade.
Os produtos químicos especializados apresentam um quadro diferente. Produzidos em volumes mais reduzidos para aplicações de nicho e com margens mais elevadas, oferecem poder de fixação de preços e uma substituição limitada. Com matérias-primas mais baratas disponíveis, os produtores de produtos especializados apresentam frequentemente um desempenho superior durante as recessões.
Esta divergência está a impulsionar mudanças estratégicas. Os grandes intervenientes no setor das matérias-primas estão a aproveitar a recessão para modernizar as infraestruturas e subir na cadeia de valor. Na China, a «involução» impulsionada pelas políticas está a acelerar a renovação de instalações envelhecidas e a orientação para os produtos especializados. Os produtores do Golfo estão a explorar vantagens de custo e a procurar aquisições para expandir a jusante, ao mesmo tempo que investem em tecnologia de conversão de crude em produtos químicos — aumentando os rendimentos petroquímicos para 70–80 por cento, contra os 10–20 por cento da refinação convencional. Além disso, os encerramentos temporários de instalações para modernização estão a tornar-se mais comuns, à medida que as empresas procuram posicionar-se para uma produção de maior valor assim que a procura recuperar.
A consolidação está a ganhar ritmo, à medida que as empresas procuram escala e inovação. A aquisição da Covestro pela ADNOC, no valor de 11,7 mil milhões de euros, sublinha a aposta nos polímeros de alto desempenho e nas plataformas integradas. As empresas norte-americanas também estão a reestruturar os seus portfólios: a Occidental está a alienar a OxyChem e a DuPont está a abandonar o segmento das aramidas para se concentrar mais nas especialidades.
Os mercados de fertilizantes estabilizam, mas os riscos persistem
Os preços dos fertilizantes moderaram-se em relação ao pico de 2022, mas permanecem acima das médias pré-crise. A recente descida dos preços do gás natural aliviou os custos de produção dos fertilizantes à base de azoto, enquanto as isenções tarifárias dos EUA sobre produtos de azoto e fosfato estão a melhorar os fluxos comerciais e a reduzir as pressões sobre os preços internos. A procura mantém-se firme, apoiada pelos preços das colheitas e pelo plantio sazonal, mas o crescimento da oferta é limitado e ainda mais restringido pelos controlos de exportação mais rigorosos da China sobre os fertilizantes fosfatados, deixando assim os mercados expostos à volatilidade energética e aos riscos geopolíticos.
Os preços do azoto recuperaram para 700–800 USD por tonelada, apesar dos custos mais baixos do gás, refletindo uma oferta restrita e uma forte procura sazonal. As isenções tarifárias dos EUA podem criar um excesso de oferta a curto prazo e intensificar a concorrência entre os exportadores. Os preços do fosfato estabilizaram-se, mas espera-se que as isenções reduzam as diferenças de preços entre os EUA e o resto do mundo e impulsionem as importações de Marrocos e da Arábia Saudita, enquanto as restrições à exportação da China continuam a limitar a disponibilidade global. Os mercados de potássio encontram-se comparativamente estáveis, entre 300 e 350 dólares por tonelada, sustentados por uma oferta resiliente do Canadá e da Bielorrússia e por uma baixa volatilidade em relação a outros segmentos. Apesar dos riscos geopolíticos, os embarques russos têm-se mantido praticamente ininterruptos, reforçando assim a estabilidade do mercado.
Gráfico 2 PT (inserir título abaixo)
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Autores e especialistas
Gráfico 1: Taxa de utilização da capacidade
Fonte: FED, DG ECFIN, NBS, Macrobond, Coface