O Evento Risco País da Coface reuniu em Lisboa especialistas em economia, geopolítica e comércio internacional, destacando-se um alerta para o impacto das tensões no Médio Oriente, o aumento dos custos da energia e a crescente fragmentação geoeconómica nas empresas e cadeias de abastecimento. As perspetivas apontam ainda para um aumento de 6% das insolvências empresariais a nível mundial em 2026, superando níveis pré-pandemia. Apesar dos desafios, Portugal evidencia oportunidades relevantes enquanto “connector country”, beneficiando da sua localização estratégica, estabilidade, capital humano qualificado e custos competitivos.
As tensões no Médio Oriente, o aumento dos custos da energia, a fragmentação geoeconómica e o papel de grandes potências como os Estados Unidos e a China estão a redefinir as regras do comércio internacional e a elevar os níveis de risco. Tudo isto está a configurar um cenário mais volátil e complexo para empresas e investidores, marcado por uma crescente interdependência entre geopolítica e economia. Este contexto levou a Coface, líder mundial em gestão integral do risco de crédito comercial, a rever em baixa a sua previsão de crescimento do PIB mundial para 2026 em três décimas, para 2,3%, face aos 2,6% estimados em fevereiro. Em Portugal, esta estimativa de crescimento situa-se nos 1,6%.
Foi isto que ficou patente durante a 21ª edição do Evento Risco País da Coface em Lisboa, um evento que contou com moderação de Antonio Aparício, Regional Sales Manager da Coface, e com a participação de destacados especialistas em análise económica, economia internacional e risco país, como Bruno de Moura Fernandes, Head of Macroeconomic Research da Coface, Carlos Andrade, Chief Economist do novobancoe Bernardo Ivo Cruz, Professor Auxiliar Convidado na Universidade Católica Portuguesa, NOVA School of Law – Faculdade de Direito da Universidade NOVA de Lisboa e Diretor do Colégio para a Transformação e Liderança da Universidade de Évora.
“Vivemos num mundo cada vez mais incerto, em que abrir-se ao exterior já não é uma opção, mas uma necessidade — e fazê-lo com segurança é hoje o grande desafio das empresas. Na Coface, celebramos 80 anos como Grupo e 25 anos de presença em Portugal, um mercado estratégico marcado por empresas ágeis e internacionalizadas. A nossa parceria com o novobanco demonstra como a proximidade local e a expertise global se complementam, reforçando o nosso compromisso de apoiar as empresas com conhecimento, análise económica e soluções que lhes permitam tomar decisões mais claras e seguras num contexto global cada vez mais complexo”, afirmou Cláudia Vasconcelos, Country Manager da Coface em Portugal.
Geopolítica, tensões comerciais e tarifas: principais focos de risco
Durante a sessão, Bruno de Moura Fernandes, Head of Macroeconomic Research da Coface, analisou como a economia mundial atravessa uma fase de crescente vulnerabilidade, marcada por tensões geopolíticas, energéticas e comerciais.
O especialista centrou parte da sua intervenção nas consequências económicas das tensões no Médio Oriente e, em particular, no risco associado a uma interrupção prolongada do tráfego marítimo no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Segundo explicou, um agravamento da situação nesta zona teria um impacto muito mais amplo do que o energético, afetando também cadeias industriais e setores estratégicos como fertilizantes, transporte, automóvel ou tecnologia. Além disso, alertou que “a Europa e a Ásia enfrentam a época de reposição das reservas de gás natural num contexto de inventários baixos e crescente concorrência internacional pelo abastecimento, o que aumenta a pressão sobre os preços e a incerteza empresarial”.
Bruno de Moura Fernandes alertou ainda para o risco crescente de estagflação e para a redução das margens empresariais. “Os preços estão a aumentar a um ritmo consideravelmente superior ao dos preços de venda, o que está a exercer uma pressão crescente sobre a rentabilidade das empresas”, assinalou.
A isto soma-se um contexto internacional cada vez mais condicionado por tensões comerciais. Embora os Estados Unidos tenham moderado algumas medidas tarifárias, o nível de proteção comercial continua em máximos e a gerar distorções no comércio internacional, nos custos empresariais e na inflação. O economista da Coface destacou também o risco que representa para a indústria europeia a crescente desconexão comercial entre os Estados Unidos e a China. Este cenário poderá intensificar a entrada de produtos chineses na Europa e aumentar ainda mais a pressão competitiva sobre determinados setores industriais europeus.
Neste sentido, referiu a divergência entre os preços de exportação da China e os dos Estados Unidos e da zona euro, que reflete uma crescente pressão competitiva sobre a indústria europeia. Enquanto a China tem contido ou reduzido os seus preços de exportação, os dos seus principais concorrentes ocidentais mantêm-se em níveis significativamente superiores. Esta dinâmica coincide, além disso, com uma evolução fraca e desigual da produção industrial europeia, com países como Portugal ainda abaixo dos níveis pré-pandemia. No caso português, a recuperação industrial continua irregular, evidenciando a sua vulnerabilidade perante uma maior entrada de produtos chineses no mercado europeu.
Neste contexto, afirmou que “a economia mundial enfrenta um cenário de crescimento mais fraco, mais desigual e muito mais exposto a riscos geopolíticos, energéticos e comerciais”. E, segundo as previsões da Coface, o crescimento do PIB mundial estabilizará entre 2,2 % e 2,5% entre 2026 e 2027. O especialista referiu ainda que o deteriorar do ambiente económico e financeiro continua a refletir-se no tecido empresarial: “o número de insolvências empresariais continua a aumentar em todas as regiões e já se encontra acima dos níveis pré-pandemia, com os valores mais elevados da última década”. A nível mundial, estima-se um aumento de 6% nos processos de insolvência este ano.
“Portugal, tradicionalmente aberto ao mundo, enfrenta hoje um contexto internacional muito mais instável do que aquele que marcou o período entre 1989 e 2001, quando o multilateralismo, o direito internacional e os mercados funcionavam de forma previsível. O século XXI tem sido vivido como uma sucessão contínua de crises, obrigando países como Portugal a adaptarem‑se a alianças flexíveis e agendas em constante reconfiguração dentro das organizações internacionais. Neste cenário, Portugal pode desempenhar um papel relevante precisamente pela sua capacidade de dialogar com diferentes regiões — Europa, Américas, Ásia — e de participar em múltiplos círculos de cooperação que se formam em torno de interesses comuns, reforçando a sua vocação histórica de país aberto, diplomático e conectado ao mundo”, afirmou Bernardo Ivo Cruz.
“A economia mundial está a atravessar uma transformação estrutural profunda: a globalização não recuou, mas tornou‑se mais curta, mais tensa e mais condicionada por fatores geopolíticos. A sucessão de choques — pandemia, guerra na Ucrânia, conflitos no Médio Oriente e novas guerras comerciais — expôs a vulnerabilidade de cadeias de valor altamente fragmentadas e dependentes de ‘just‑in‑time’. O resultado é um novo paradigma económico centrado em segurança, resiliência, autonomia estratégica e gestão de riscos.
Neste contexto, Portugal surge com oportunidades relevantes, enquanto ‘connector country’, beneficiando da sua localização, estabilidade, capital humano e custos competitivos. A capacidade instalada em energias renováveis reforça a atratividade para setores intensivos em energia e para a economia digital (IA, data centers).
Portugal deve investir na modernização das competências, na inovação e na capacidade de se posicionar como plataforma segura, eficiente e conectada num mundo cada vez mais fragmentado”, afirmou Carlos Andrade, Chief Economist do novobanco.
Um espaço para trazer clareza num ambiente incerto e em mudança
Ao longo da sessão, discutiu-se como a economia global atravessa uma mudança de paradigma em que geopolítica, energia, tecnologia e comércio internacional estão cada vez mais interligados. Um ambiente marcado por maior fragmentação, mais volatilidade e um nível de risco cada vez mais estrutural para empresas e investidores.
A Conferência de Risco País da Coface voltou a consolidar-se como um espaço de referência para ajudar empresas e profissionais a interpretar um contexto internacional cada vez mais complexo e a tomar decisões estratégicas com mais informação, capacidade de antecipação e adaptação.
