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2016/23/03
Risco País e Estudos Económicos

China: 80% do universo empresarial foi afectado por atrasos de pagamento em 2015

China: 80% do universo empresarial foi afectado por atrasos de pagamento em 2015

O novo estudo da Coface sobre gestão do risco de crédito nas empresas, no qual participaram  1.000 empresas localizadas na China, revela que os prazos de pagamento continuaram a deteriorar-se em 2015, com 8 em cada 10 empresas a experienciar situações de atraso. A Coface prevê que o crescimento do PIB irá abrandar para 6.5% em 2016 (vs 6.9% em 2015). Para além dos problemas por resolver relacionados com a elevada alavancagem e o excesso de capacidade em muitos sectores, a pressão descendente do Renminbi e a volatilidade da bolsa de valores são preocupações para o mercado chinês em 2016. Não é expectável que os prazos de pagamento melhorem no curto prazo.

 

Os atrasos de pagamento nas empresas continuam, apesar de uma abordagem ao crédito mais prudente

Em 2015, a média dos créditos oferecidos às empresas localizadas na China diminui novamente, reflectindo uma abordagem mais prudente na concessão de facilidades de crédito aos clientes. Isto é, provavelmente, o resultado combinado da experiência em atrasos de pagamento nos últimos anos, da deterioração da confiança e das expectativas de um crescimento mais lento.

 

No entanto, os riscos aumentaram, com 80.6% das empresas a experienciarem atrasos de pagamento em 2015 (vs 79.8% em 2014). Destas empresas, 58.1% reportaram também um aumento da quantidade de créditos vencidos. Uma elevada percentagem de inquiridos (+4 pontos percentuais, i.e. 10% do total) afirmaram que o prazo médio de pagamentos foi superior a 150 dias. Cerca de 17.9% das empresas inquiridas tiveram de enfrentar atrasos de pagamento de longa duração (mais de 180 dias) com montantes de créditos vencidos que excediam em 5% o seu volume de negócios anual. Este aumento dos atrasos de pagamento de longa duração está a colocar uma crescente pressão na situação financeira das empresas.

Esta informação está em linha com a dinâmica verificada nos dados sobre os créditos em incumprimento, divulgados pela Comissão Reguladora do sector Bancário Chinês. O rácio do crédito malparado alcançou os 1.59% no final de 2015, o seu nível mais alto desde 2009 (comparado com 1% de 2013)[1]. Os créditos em incumprimento aumentaram mais de 50% nos três primeiros trimestres de 2015. Neste contexto, o risco de um aumento dos créditos em dívida não deve ser subestimado.

 

Uma economia pessimista ensombrada por múltiplos desafios em 2016

As empresas chinesas que estão a sofrer com o excesso de capacidade e uma redução dos lucros têm agora uma maior probabilidade de incumprimento, uma vez que o governo decidiu enfrentar o problema de excesso de capacidade e as empresas “zombie”. Apesar do crescimento do crédito estar a diminuir, a dívida privada continua a crescer mais depressa que o PIB. A china ainda não entrou no processo de desendividamento e os riscos estão a aumentar. A dívida do sector privado não-financeiro alcançou os 201% do PIB em Junho de 2015, comparado com os 114% em Junho de 2008 e 176% em Junho de 2013.

 

O crescimento do PIB chinês de 6.9% em 2015 foi o mais baixo em 25 anos, a previsão da Coface de 6.5% em 2016 será outro recorde. A dinâmica está numa tendência descendente, devido ao processo de reajustamento e à fraca procura global. As autoridades estão a implementar as reformas necessárias para reajustar o crescimento a favor do consumo e dos serviços. Apesar dos efeitos positivos no médio prazo, este reajustamento tem tido alguns efeitos negativos no curto prazo e gerou fortes desafios para as indústrias, ao atingir os lucros e agravar os riscos do crédito. 

A Bolsa de Valores na China tem vindo a experienciar um novo episódio de queda (-16% durante a primeira semana de Janeiro) e instabilidade. O forte uso de margens financeiras (investidores a emprestar dinheiro para a compra de acções) aumentou o risco de crédito e pode intensificar uma espiral descendente. Simultaneamente, o yuan registou uma queda sem precedentes, atingindo um mínimo de 5 anos face ao dólar americano, durante a primeira semana de Janeiro. A valorização do yuan está também a sofrer com os fluxos de capitais, agravado pelas preocupações com o abrandamento da economia chinesa.

 

No âmbito monetário, o Banco Popular da China iniciou um ciclo de abrandamento em Novembro de 2014 e, desde então, já cortou a base da taxa de referência 6 vezes (165 bp), reduziu o rácio de reserva exigido pelos bancos (RRR) 5 vezes (-300bp) e injectou liquidez na economia (1.5 triliões em Janeiro 2016, através de várias ferramentas). Contudo, as medidas de abrandamento monetário não foram muito eficazes.

“A estratégia do governo é ambígua e as autoridades são apanhadas entre dois objectivos. Por um lado, precisam de encontrar um equilíbrio entre o suporte do crescimento do PIB, de modo a prevenir uma “aterragem brusca” da economia e proteger o mercado laboral, enquanto que por outro lado, precisam de gerir o risco da bolha da dívida. Ao mesmo tempo, os negócios na China estão a enfrentar desafios crescentes, tais como uma elevada alavancagem, com custos acentuados de financiamento (apesar da flexibilização monetária), a baixa rentabilidade (motivada por um enorme excesso de capacidade em alguns sectores), a instabilidade da moeda estrangeira e da bolsa de valores. As medidas de abrandamento monetário não foram muito eficazes em 2015 e a Coface espera mais pacotes de estímulo para 2016, à medida que as autoridades chinesas se esforçam para evitar uma aterragem brusca da economia”afirma Charlie Carré, economista da Coface.

 

Sectores de Alto Risco: construção, metalúrgico e TI

Segundo a análise da Coface, o sector da construção parece ser o de maior risco e a situação esta a deteriorar-se rapidamente. Cerca de 28.3% das vendas a crédito no sector estão em incumprimento há mais de 150 dias e 57%  dos inquiridos têm mais de 2% da sua facturação afectada por atrasos de pagamento com mais de 6 meses[2]. Os sectores metalúrgico e de Tecnologias de Informação, registaram respectivamente, 13% e 15.2% de incumprimento nas vendas a crédito com mais de 150 dias – enquanto as telecomunicações também estão sob pressão. Alguns sectores estão numa situação melhor, mas mesmo os sectores relacionados com as despesas das famílias, tais como o retalho e a indústria automóvel, estão a sofrer uma deterioração na sua experiência de pagamentos.

 

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A Coface tem realizado este estudo sobre a gestão de risco de crédito empresarial na China desde 2003. O estudo de 2015 é a 13ª edição. Entre Outubro e Novembro de 2015, participaram neste estudo 1.000 empresas provenientes de diferentes sectores . Este estudo  fornece um melhor entendimento sobre a dinâmica da experiência de pagamentos das empresas localizadas na China e as suas práticas de gestão de crédito.

 

[1] Fonte: Comissão Reguladora Bancária da China

[2]A Coface considera que é improvável a recuperação de créditos com mais de 6 meses. A experiência de pagamentos da Coface demonstra que raramente 80% desses créditos não se recupera, caso o pagamento não seja realizado nos primeiros 6 meses. Quando o montante destes créditos malparados  excede os 2% do total do volume de negócios anual das empresas, a liquidez das mesmas pode tornar-se um problema no que respeita à sua própria capacidade para fazer frente aos seus compromissos comerciais junto dos fornecedores.

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